Estudos Jornalísticos

domingo, julho 31, 2005

O blog de Resistentes

Num período em que deixou de haver papel para a tinta correr, os jornalistas e demais trabalhadores de O COMÉRCIO DO PORTO encontram neste espaço a via para o exterior, por forma a manter viva a alma do jornal mais antigo de Portugal continental

Fica em ocomerciodoporto.blogspot.com/.

O Jornalismo Narrativo (6)

Escreve Gabriel Galdón López em "Desinformação e os limites da Informação".

De facto, e de um ponto de vista meramente “empírico”, qualquer leitor medianamente inteligente pode comprovar – e sabe já – que se pode obter mais e melhor informação das colunas diárias ou semanais (…), do que dos milhões de notícias “objectivas” que aparecem diariamente.

Será?

sexta-feira, julho 29, 2005

"Comércio do Porto" e "A Capital" num último e honrado esforço

Para que nunca se fechem redacções.


"Porto, 29 de Julho de 2005

Ex.mos Senhores,


Anunciadas que foram hoje as suspensões das duas publicações do Grupo espanhol Editorial Prensa Ibérica (EPI) em Portugal, “O Comércio do Porto” (CP) e de “A Capital”, os trabalhadores do CP vêm por este meio exortar a todos quantos se queiram juntar à nossa luta, enviando para todos os vossos contactos o apelo para que os jornais não sejam definitivamente encerrados.

Os trabalhadores do CP foram confrontados, no início desta semana, com o possível encerramento da publicação, apesar de, face aos investimentos que foram feitos pelo grupo EPI no jornal, nada fazer prever o cenário que hoje nos foi apresentado.

O CP é, para além do jornal mais antigo de Portugal continental, uma publicação feita de resistentes. Aquando da compra pelo grupo EPI, vimos 60 colegas nossos serem “convidados” a ir embora, para que fosse viável o negócio. Nos últimos anos, todos os que hoje aqui vos escrevem suportaram salários baixos (que estavam, agora, a ser revistos) e sobrecarga de trabalho, porque SEMPRE ACREDITARAM no projecto do CP.

Sempre nos foi dito que o CP seria um projecto interessante para qualquer investidor tendo em conta a sua força no Norte de Portugal. Apesar da decisão de suspensão, continuamos a acreditar que este é um projecto viável e pelo qual vale a pena lutar.

Mais expectativas foram criadas nos últimos tempos, em que se discutia a entrada para os quadros de pessoal de “falsos” recibos verdes. O lançamento do “Porto In”, guia cultural que acompanha as edições de domingo do CP, fez-nos acreditar que seria mais um passo para a consolidação da marca do CP.

Os trabalhadores consideram deplorável a forma como todo o processo foi tratado, ainda mais tendo em conta o esforço e dedicação que sempre aplicaram à realização deste diário, mesmo em condições adversas. Nesta semana acalentaram-nos esperanças com possíveis compradores e agora vemos que o prazo que tinham dado para o fazerem era manifestamente irrisório.

Agradecemos todos os esforços que foram feitos por todas as entidades para tentarem contornar este desfecho, incluindo as direcções de ambos os jornais. Agradecemos também a todos os que já manifestaram a sua solidariedade para com a nossa tristeza e apelamos a todos que se juntem à nossa luta.


Os trabalhadores de O Comércio do Porto"

quinta-feira, julho 28, 2005

Ainda a propósito de repetições...

A noção de repetição não tem o mesmo valor nos três maiores meios de difusão de informação. E nem sequer se pode comparar o que é repetido. Ou seja, um programa não é o mesmo que uma notícia.
Serve isto de introdução à tendência dos telejornais em repetir peças jornalísticas de dias anteriores. Esta situação é compreensível, dentro de certos parametros, na rádio*. Não é admissível na imprensa (apenas acontece em casos muitos especiais**), mas é na televisão que se verifica o maior problema. Quando isto acontece, o que falta para classificar a informação de "material de um espectáculo nunca completo"***?

* na rádio, a repetição de reportagens e notícias do dia anterior é muito difícil de encontrar. Nota: não falo aqui do normal funcionamento dos noticiários ao longo do dia. É evidente que há imensas repetições, mas visto deste modo, não são a consequência da falta de material para preencher as edições.
** veja-se, por exemplo, o artigo de Luis Campos e Cunha, no Público, num determinado dia, e repetido dias depois quando o agora ex-ministro das Finanças foi demitido do Governo. Dada a importância do assunto, o jornal republicou o texto, mas fez questão de justificar essa opção. Nem podia ser de outra forma.
*** há várias razões para isto acontecer. Desde logo, a falta de preparação das redacções em determinadas alturas do ano. Depois, a sensação de que a notícia ou reportagem em causa não teve o impacto desejado porque, a) a concorrência deu algo mais atractivo, b) porque são trabalhos de índole social e "isso vende", c) serve para encher noticiários até ao ponto pretendido do prime-time. Por exemplo.

quarta-feira, julho 27, 2005

O Jornalismo Narrativo (5)

Os argumentos por um jornalismo que investigue mais, que mostre para além dos olhos, que vá ao fundo das questões de forma séria e honesta, vai ganhando força, pelo menos enquanto corrente "recuperada".
Todos os dias, jornalistas são confrontados com a obrigação de escrever sobre determinado assunto e de forma pré-concebida. É um jornalismo de baixo nível, que tem tendência a prevalecer no futuro. Só não vê quem não quer.
Mark Kramer recordava, na entrevista à Pública (que fiz referência na segunda-feira), que os jornalistas sabem sempre muito mais do que aquilo que escrevem e difundem. Por isso, muitas vezes, a ficção é a solução encontrada para revelar pormenores, mesmo que disfarçados, sobre casos, pessoas, instituições que prejudicam o normal funcionamento dos media. Foi assim que surgiu o Novo Jornalismo.
Constrangimentos económicos, pessoais, históricos, da empresa jornalística em que trabalha, etc., tudo contribui para o verdadeiro momento privado do jornalista, que é o acto de escrever.

segunda-feira, julho 25, 2005

O Jornalismo Narrativo (4)

Mark Kramer, o "guru" do Jornalismo Narrativo, expõe a sua teoria de forma bastante interessante numa entrevista a Paulo Miguel Madeira, na Pública de ontem.
Kramer garante que os jornais que apostam neste estilo noticioso aumentam o número de vendas, invertendo a tendência actual de queda, muito por culpa dos directores e administradores dos órgãos de comunicação social.
O jornalista e académico americano dá exemplos da forma como as notícias podem ser mais "apelativas" ao público. Vale a pena registar aqui o paradigma lançado por Kramer, após uma inteligente pergunta do jornalista:

- Não é todo o jornalismo uma tarefa narrativa?
Claro que sim. Mas deixe-me pegar na história mais chata e horrível que existe: a da comissão de planeamento de uso do solo de uma cidade. Todos os repórteres têm de gastar horas sem fim: o novo centro comercial vai, ou não, ser aprovado? Como é que se chega à realidade disto? A história-padrão dos jornais é: "A comissão de planeamento de uso do solo, ontem, numa votação por três a um, aprovou a construção de um novo centro comercial". E adeus... Voz passiva, impessoal. Em jornalismo narrativo poderia ser: "O juiz bateu com o martelo na mesa. A advogada Mary Jones sorriu. O advogado Howard Smith franziu o sobrolho. As suas expressões representavam o fim de três anos de uma batalha dramática envolvendo vizinhos, poderosos interesses financeiros e os consumidores em geral". Imediatamente, por causa da narrativa específica, fica-se em posição de discutir as forças sociais reais. A primeira história também é narrativa num sentido restrito. Alguma coisa aconteceu no tempo. Mas mascara todos os actores e não reconhece qualquer luta".

Mais à frente, Kramer avança com outra explicação para, o que em seu entender, justifica a adopção do jornalismo narrativo.

"É uma forma de dar mais poder ao jornalista. (...) É uma maneira de desburocratizar o jornalismo"

E sobre os obstáculos ao jornalismo narrativo...

"tende a tornar uns poucos jornalistas em estrelas, o que os faz ser polivalentes. Custa dinheiro, ocupa espaço, compete com as funções tradicionais. Cria problemas de agendamento."

Considerp que há uma contradição no discurso de Mark Kramer. Ele advoga que o jornalismo narrativo serve de motor para o aumento do número de venda de jornais e para captar novos - e velhos - leitores. Mas admite que este tipo de textos, pela sua característica, ocupam mais espaço num jornal. Uma das razões apontadas para o declínio de vendas, para além da linguagem burocrática (que eu concordo, mas que por vezes é o ideal), é precisamente o olhar apressado que a maioria das pessoas, nos dias de hoje, emprestam à leitura de um jornal. Mais espaço, mesmo que com qualidade, vai obrigar o leitor médio a ler com mais atenção e com maior disponiblidade de tempo?

sábado, julho 23, 2005

Mesmo tema, opções diferentes

As eleições presidenciais são o tema de capa de dois jornais, diários de referência. Com diferenças incríveis. No DN há a garantia de que

"Soares pressionado a avançar para Belém"

Já o Público revela palavras de Manuel Alegre...

"Manuel Alegre disponível para ser candidato a Presidente da República"

...E sobre Mário Soares, no mesmo texto, escreve:

"Mas ontem à noite, em Lagos, Mário Soares foi explícito em declarações aos jornalistas, a esclarecer que não é candidato. (...) E frisou ainda que já disse "duas vezes" que apoiará Alegre se este for candidato".

O DN aposta em dois títulos para a mesma notícia, mas aquela que deveria figurar em primeiro plano foi relegada para o interior (ou seja, "Mário Soares pondera candidatura a Belém"). Mesmo sendo importante que o Partido Socislista está a pressioná-lo para uma candidatura, essa informação não perde força perante uma "ponderação" do próprio Soares?

sexta-feira, julho 22, 2005

Apoios à edição de livros de jornalismo e comunicação social. Efeito perverso?

Alargo o comentário ao texto de Rogério Santos, por estes dias da blogosfera, a propósito da revelação de que José Tengarrinha tem um texto pronto ("Imprensa e opinião pública em Portugal"), mas que não é publicado enquanto a editora não garante o apoio à edição por parte do Instituto da Comunicação Social.
Estes subsídios funcionaram como mola para o aparecimento em massa de livros especializados na temática. Muitos editores começaram a apostar em estudos, teses, relatos jornalísticos, compilações de textos impressos, etc.
Razões apontadas:

- a expansão dos cursos de ciências da comunicação e o alargar de um mercado composto maioritariamente por universitários, mas também por alunos do secundário, pré-ensino superior;
- uma procura maior por parte do público que "consome" televisão, rádio, imprensa, internet, publicidade, e que se interessa por estes assuntos;
- curiosidade sobre temas debatidos na praça pública e que eram discutidos apenas entre "especialistas";
- a noção de que o jornalismo tem um carácter de estudo científico.

Se os apoios à edição facilitaram este aumento do número de livros publicados - apesar de, como se supõe, algumas edições pagarem outras -, tiveram também o efeito contrário: sem a participação financeira por parte do ICS não se publica. É o efeito perverso do incentivo. Se há casos em que isso se justifica, o de José Tengarrinha não é, definitivamente, um deles. Compreendo a editora do ponto de vista comercial - um livro deste género terá uma tiragem de 1000 exemplares (?), e muitas vezes nem sequer é adquirido por aqueles a quem se dirige em primeiro lugar... - mas é difícil de entender como é que o prestígio de um autor, responsável por um trabalho único, editado em 1989- e julgo que esgotado - de "História da Imprensa Periódica Portuguesa", não seja motivo de "lançamento imediato".

Alguns livros de comunicação social e jornalismo publicados nos últimos anos:

Minerva Coimbra
- "A Negociação entre Jornalistas e Fontes", Rogério Santos
- "A Deontologia dos Jornalistas Portugueses", Sara Pina
- "O Jornalismo em Análise - A coluna do provedor dos leitores", Mário Mesquita
- "A Dramatização da Imprensa no PREC", Pedro Diniz Sousa
- "História em Directo - Os acontecimentos mediáticos na televisão", Elihu Katz e Daniel Dayan
- "O Quarto Equívoco", Mário Mesquita

Editorial Notícias
- "Ainda Bem que me pergunta", Daniel Ricardo
- "Modelos de Comunicação", Sven Windahl e Denis McQuail
- "Shiu... Está aqui um jornalista", Luis Paixão Martins
- "O Espectáculo das Notícias", Nuno Brandão
- "Desafio dos Novos Media", Francisco Rui Cádima
- "Pequeno Breviário Jornalístico", Joaquim Letria
- "O Discurso do Jornal", José Rebelo

Campo das Letras
- "A Economia da TV", Enrique Bustamante
- "Televisão e Censura", Mário Castrim
- "Histórias da Televisão Portuguesa", Mário Castrim
- "A Cidade dos Media", Nobre Correia
- "Tirania da Comunicação", Ignacio Ramonet
- "Propagandas Silenciosas", Ignacio Ramonet
- "História das Teorias da Comunicação", Armand e Michèle Mattelart
- "O Novo Jornalismo Fardado - El País e o nacionalismo basco", Angel Rekalde e Rui Pereira

Editorial Verbo
- "Dicionário de Jornalismo", Fernando Cascais
- "A Guerra em Directo", Carlos Fino

Editorial Caminho
- "Os Jornalistas e as Notícias", Fernando Correia
- "O Jornalismo Português em Análise de Casos", Nelson Traquina, Ana Cabrera, Cristina Ponte e Rogério Santos
- "História da Imprensa Periódica Portuguesa", José Manuel Tengarrinha

O Jornalismo Narrativo (3)

Aquilo que se convencionou chamar "novo jornalismo" pressupunha uma série de regras que, por serem difíceis de respeitar, não foram tidas em conta por vários autores, e tiveram pouco resultado nos anos que se seguiram ao "boom" de Truman Capote ("A Sangue Frio") ou Tom Wolfe ("A Fogueira das Vaidades", "Um Homem em Cheio"), por exemplo. "Novos-jornalistas" fizeram tábua rasa de características como a "realidade real", inventado personagens e diálogos, ao mesmo tempo que desvirtuavam o movimento.
Tom Wolfe explica, no livro "O Novo Jornalismo", os 4 pontos essenciais desta corrente jornalístico-literária:

O fundamental era a construção cena a cena, contando a história saltando de uma história para outra e recorrendo o menos possível à mera narrativa histórica (...) E registar o diálogo na sua totalidade (...) O diálogo realista capta o leitor de forma mais completa do que qualquer outro procedimento individual. O terceiro ponto era, por assim dizer, o "ponto de vista na terceira pessoa", a técnica de apresentar cada cena ao leitoratravés dos olhos de uma personagem particular, para lhe dar a impressão de estar metido na pele da personagem e de experimentar a realidade emotiva da cena tal como ela a está a experimentar. (...)
O quarto procedimento consiste na relação de gestos quotidianos, hábitos, modos, costumes, estilos de mobiliário, de vestir, de decoração, de viajar (...)

O aparente insucesso do Novo Jornalismo fica a dever-se em grande parte ao que não é abrangido pelo conceito. Não reflecte toda a sociedade, mas apenas aspectos dela e, consequência, não chegam a todo o público. Além disso, está ligado umbilicalmente à noção de extrema subjectividade, impendindo que se torne referência central no jornalismo.

quinta-feira, julho 21, 2005

O Jornalismo Narrativo (2)

O jornalismo foi sempre palco de ínumeras experiências, algumas pessoais, outras de escola, que introduziram diferenças quer na forma de olhar a própria profissão, quer na maneira de narrar a realidade.
Jornalismo literário, de causas, a investigação aprofundada, a denúncia, as breves narrativas, as crónicas de actualidade, o novo jornalismo, são algumas dessas correntes, visíveis muitas delas nos jornais portugueses, como atestam um rápido olhar pelas suas páginas. Apesar disso, alguns destes "géneros" de escrita jornalística não são muito estimulados nas redacções, em parte porque são propícios a grandes doses de subjectividade. E o jornalismo actual quer-se prático, de leitura fácil e que não confunda nem oriente o leitor. Ainda que o faça quando selecciona umas notícias em detrimento de outras...

Boas notícias

No DN:

O uso de fontes anónimas em notícias, a proibição dos jornalistas desportivos de participarem em votações ligadas ao desporto e limites à participação dos jornalistas em weblogs pessoais são algumas das novidades do novo código de ética do Los Angeles Times, agora concluído e divulgado pelo jornal.

quarta-feira, julho 20, 2005

O jornalismo narrativo (1)

Acrescentar pormenores interessantes - mas não importantes - pode ser um meio de atrair leitores de jornais? O floreado é essencial para uma boa informação?
O que se tem de discutir quando se fala de "jornalismo narrativo para contornar a dificuldade em cativar leitores" é saber se o importante é vender por vender, mesmo que a qualidade diminua, ou continuar a escrever como sempre se escreveu, respeitando os princípios essenciais de uma história.
Numa altura em que se fala do pouco tempo para se ler jornais, faz sentido investir em novas formas de cativar o leitor? Se tomarmos como exemplo o lead, esta técnica foi criada justamente para facilitar o rápido consumo. Mark Kramer defende, numa entrevista ao DN, que o jornalismo narrativo

"pode ter o seu espaço nas colunas de opinião e nas histórias diárias, muitas vezes podem ter um lead narrativo, de forma a prender os leitores e, por isso, é possível encontrar diariamente uma extensão de jornalismo narrativo".

Mas, onde está a novidade?

Evidentemente...

Escritor George Orwell foi vigiado pelos serviços secretos britânicos

segunda-feira, julho 18, 2005

Jornalistas e Jornalistas

Diana Andringa assume-se como “jornalista no desemprego até ser eleita. Depois entrego a carteira profissional”. Retive esta afirmação de uma newsmagazine, em que a antiga jornalista da RTP explicava a razão pela qual decidiu investigar “a expensas próprias” o “Arrastão”. Julgo que o título da notícia era “Michael Moore portuguesa”, ou semelhante.
O tema merece reflexão e ela tem sido feita nos últimos tempos. Não só no caso de Andringa – por quem tenho uma simpatia profissional – mas de outros que proliferam na classe, cujo rosto mais discutível será o de Alfredo Maia.

Há uma espécie de contrato não assinado entre o jornalista e a sociedade. E esse acordo de princípios acolhe direitos e deveres. Não concebo que um jornalista seja divulgador de uma notícia da qual é parte interessada porque pesará o leitor ou ouvinte pode desconfiar do que lê ou ouve. De todo o tipo de “ruído” que pode ser provocado pelo jornalista, este é o mais preocupante. Arrasta consigo toda a credibilidade que se pretende e se tenta alcançar constantemente.

Jornalistas com tendências declaradas são o pior da profissão. Não aceito o argumento de que “mais vale anunciar o que sinto sobre isto, porque pior são os outros que não o fazem e escrevem como se fossem neutrais”. O importante numa notícia bem escrita e factual é o próprio texto e não o jornalista que o escreveu.
É certo que cada tem a sua preferência política, desportiva, reliogiosa, sexual, etc. São opções individuais. Mas a nobreza da profissão está precisamente nesta capacidade de tentar abstrair de qualquer influência, seja pessoal, económica, ou de qualquer outro tipo. Só há a neutralidade possível.

Há cronistas de jornais de referência, cujas colunas são preenchidas com exercícios azedos em relação a determinadas pessoas. De cada vez que o jornalista despe essa farda de opinion maker, e escreve uma notícia sobre um assunto do qual é crítico, não ficará o leitor desconfiado do que ali se lê? Se esta dúvida consumir o indivíduo que pega no jornal ou liga a televisão, então, será a “morte” do jornalista.

sexta-feira, julho 15, 2005

O lead imperfeito para quem só gosta de ler títulos e só se interessa por casos de polícia, mas que se atreveu a ler umas linhas...

Cinco funcionários, quatro deles com cargos de gestão, de duas instituições de solidariedade social, foram ontem presos em Lisboa pela Polícia Judiciária (PJ) por suspeita de desvio e fraude na obtenção de subsídios, falsificação de documentos, peculato e burla.

O título perfeito para quem só lê títulos e só se interessa por casos de polícia...

"Cinco funcionários públicos desviaram um milhão de euros"
Notícia do Público

Como escrever a notícia de uma tentativa falhada de um atentado?

Andam os jornalistas a exagerar com notícias importantes mas sem a real importância que lhes é dada? E quais as consequências disso? Auto-censura das autoridades? Dificuldade de acesso à informação?

- Porque razão o público normalmente não sabe dessas diligências?
- Algumas foram tornadas públicas. Mas é preciso ter consciência de que se deve informar sem alarmar.
António Vitorino, ex-comissário europeu, em entrevista ao Público.

A ascensão de assuntos menores a categoria de notícias com enorme destaque é contrário à primeira função social da comunicação social: informar com rigor e máxima objectividade possível.

quinta-feira, julho 14, 2005

Modos diferentes de encarar situações semelhantes

Quando, há dias, alguém criticava os jornalistas por não pedirem desculpa pelo empolamento do "arrastão", não deixa de ser paradigmático que um dos órgãos de informação mais credíveis do mundo - o mais credível? - peça desculpa por uma imagem do atentado de Londres. A imagem foi, de facto, a que me chocou mais, mas perante a preocupação da BBC em não fazer sensacionalismo, nem sequer lhe atribui culpas. Aconteceu.
Mas, pelos vistos não satisfeita, a própria British Broadcasting Communication sentiu necessidade de se explicar. A notícia está aqui, seguindo a dica do Ponto Media, de António Granado.

Leituras

Numa destas noites estive em Ermesinde para visitar uma das muitas feiras do livro que alegram as praças do país durante o Verão. Numa das bancas de alfarrabistas encontrei este exemplar sobre o Watergate.

A importância jornalística dos mortos

O número de vítimas mortais determinadas por um acontecimento não vale o mesmo em Portugal, em Inglaterra, no Iraque ou nas Filipinas. Em bom rigor, nem sequer o conceito de proximidade é determinante para definir o que é noticiável.
Dois casos de ontem dão para perceber que nem sempre o que salta à vista é o mais importante. Entre uma colisão de 3 comboios (três é claramente invulgar, mesmo no Paquistão) em Ghotki, e um atentado em Bagdade (semelhante a tantos outros nos últimos meses), os órgãos de informação preferiram destacar este último. O primeiro fez 128 mortos, o segundo pelo menos 32.
Se o número contasse, de facto, facilmente se perceberia a razão para uma notícia alargada sobre o Paquistão. Mas neste caso, não foi isso que aconteceu. Um morto é um morto, mas comparando com várias realidades, um morto em Portugal vale mais do que Paris, que por sua vez vale mais do que cem na China. Principalmente se for luso-descendente...

O que pesou no acontecimento do Iraque não foi a novidade do atentado, como já se viu, mas sim dois aspectos que o jornalismo actual não deixa escapar:

- um atentado;
- a maioria das vítimas foram crianças e adolescentes.

Além disso, no Iraque é mais fácil obter informações do que no Paquistão. Não apenas porque estão lá tropas ocidentais mas também porque "há imagens". E "há imagens" de crianças feridas, que acrescenta importância na hora de decidir qual dos assuntos privilegiar.

quarta-feira, julho 13, 2005

A retoma...

Lê-se no Jornal de Negócios:

O investimento publicitário na televisão nos primeiros seis meses do ano já superou os mil milhões de euros, um acréscimo de cerca de 30% face ao período homólogo, segundo dados divulgados pela Marktest. A estação que recolheu maior volume foi a SIC, que roubou assim a liderança à TVI.

Justificações para o nascimento de um novo canal de televisão?

As repetições de programas

Escreve hoje Miguel Gaspar, no DN:

As repetições são um empobrecimento e acentuam os efeitos negativos, nas grelhas de programas, da escassez de recursos económicos das estações. É um pouco como vender o mesmo peixe duas vezes. Mas a verdade é que, do ponto de vista do espectador, essa duplicidade não é totalmente negativa.

Ghotki (1)

"O mundo acordou com um desastre no Paquistão...", ouvi esta manhã numa das rádios de amplitude nacional. É uma expressão radiofónica - uma imagem bonita -, mas as imagens em rádio são um desejo final do locutor e não uma muleta. Neste caso, é claramente uma muleta que, primeiro, não acrescenta nada e, segundo, não corresponde à verdade.

Este é um daqueles acontecimentos que ajudam a compreender o que está por detrás de uma notícia. "Estas são as únicas imagens de que dispomos até ao momento", dizia o jornalista da RTP no "Bom Dia Portugal". O que se via era um amontoado de pessoas junto a uma estação de caminhos-de-ferros, "à espera de informações". Os dados que compunham a notícia vinham de agências noticiosas. A distância é a justificação mais lógica, e até é verdade. Mas o tratamento dado ao assunto nunca será o mesmo, comparado com uma situação semelhante na Europa ou na América. Por vários motivos, não necessariamente por esta ordem:
- dificuldade de acesso;
- a deslocação de jornalistas é dispendioso;
- as agências noticiosas fazem uma cobertura, em geral, satisfatória;
- "É no Paquistão".

Ou seja, um caso igual, noutro ponto do globo, seria motivo para directos, enviados especiais. Não me parece que se justifica uma ida ao Paquistão - já aconteceram acidentes do género várias vezes -, mas a importância da notícia mede-se por critérios cada vez menos definidos. E os próximos anos, estou em crer, vão ajudar a clarificar todos os conceitos que até hoje vigoravam nos manuais.

Destaque: escrevo estas notas enquanto "o mundo está a acordar para o acontecimento". Em princípio, voltarei ao assunto durante o dia.

Agradecimentos

A Manuel Pinto pela referência ao EJ no seu webjornal.
A Rogério Santos e ao seu excelente industrias-culturais - entre outros blogues.

segunda-feira, julho 11, 2005

A propósito de incêndios

Miguel Gaspar escreve hoje no Diário de Notícias mais uma explicação do que está por detrás da notícia. Na sua coluna Zero de Audiência Gaspar reflecte sobre a motivação dos dois canais privados - SIC e TVI - de abrirem os respectivos telejornais com os incêndios em detrimento do atentado à capital londrina.

Pergunta número 1: um jornalismo feito à medida dos desejos das pessoas informa ou embrutece? Embrutece, porque é feito em função do que as pessoas já conhecem. E aquilo que eu já conheço, não é novo. Pergunta número 2: o que acontece quando, num mundo global, as televisões falam sobretudo de temas locais? Desaparece a noção de que somos um país que se relaciona com outros países numa coisa chamada "mundo". Portugal passa a ser um lugar, ainda por cima queimado e deixa de ser um país. É ao que leva o jornalismo sobre o país real.

Ingenuamente, há uma razão para a decisão dos canais privados: a proximidade com o acontecimento. Mas, sabe-se, essa nunca poderia ser a principal motivação num órgão generalista, privado. E porquê?
Entre um acontecimento completamente controlado pelas autoridades, onde não há imagens que choquem em demasia, e outro, que pode ser controlado pelo editor, que facilmente se colocam três ou quatro repórteres no terreno - passe a redundância - e, isto sem contar com aquilo que mais importa (audiências), como evitar escolher a segunda opção?
Na minha opinião, isto é a consequência do jornalismo real, potenciado por longos telejornais em que "à partida é tudo notícia", e por directos que não acrescentam nada de essencial.

sexta-feira, julho 08, 2005

Londres

O atentado, nas televisões, não reflectiu o que realmente se passou. A aparente organização do caos deveu-se, em larga escala, ao poder da televisão de não alarmar mais do que o suficiente. Talvez pela primeira vez se percebeu que se pode informar sem chocar. Mesmo alguns comentários de rua, de gente que sofreu na pele as consequências da barbaridade, foram transmitidos de forma inteligente, sem recurso às eternas repetições de argumentos.

Por imperativos profissionais, ontem passei parte da manhã no carro. A Antena 1 não foi capaz de interromper - definitivamente e apenas por uma vez? - a sua Antena Aberta para abrir um espaço noticioso sobre o assunto. Foi revelando dados ao longo da manhã e perdeu a batalha das audiências. Claramente.

O Público fez bem em recordar a entrevista de Paulo Moura a Omar Bakri Mohamed, teórico da Al-Qaeda em Londres. É um documento importante para perceber que a organização de Bin-Laden obedece a critérios muito díspares, não controláveis pelos teóricos, como bem demonstram algumas afirmações de Bakri.

Análise preliminar e sensata de Manuel Pinto.

Documento Orientador

Estou a concluir um documento com algumas orientações de interesse deste blog. São linhas muito gerais, com itens que poderão ser alterados ao sabor do tempo. Espero apresentá-lo no início da próxima semana, pronto para receber críticas, sejam positivas ou negativas.

quarta-feira, julho 06, 2005

A Rádio nos tempos da Globalização e da Digitalização

Escreve Benjamín Fernández Bogado, jornalista paraguaio, director do Instituto Imprensa e Liberdade, no Sala de Prensa:

Uno de los medios de comunicación que nació pensando en ser un instrumento de difusión de las ideas sin límites de espacio ha sido la radio. Las emisiones en onda corta lo prueban antes que de existieran los satélites, la inversión tanto en tecnología como en contenido hicieron de este medio una herramienta que acerca o a veces divide bajo conceptos ideológicos diferentes la visión del ser humano en torno a sí mismo y a sus ideas. La globalización –que es básicamente un fenómeno signado y marcado por la comunicación y no por la economía o la visión política de los hechos que son su consecuencia– ha despertado sin embargo con razón una crítica en torno a la calidad de los contenidos más que en el soporte técnico donde su evolución ha sido más rápida y elocuente que la otra que ha sido más lenta y compleja que lo esperado. La digitalización de la amplitud modulada sigue esperando a pesar de los anuncios optimistas en torno a su evolución que nos vienen de Europa, pero lo que vemos es una crítica y una desconfianza ciudadanas hacia la calidad del contenido que valdría la pena detenernos a pensar de una manera más profunda sin que la fascinación por la tecnología termine acabando el mismo en una nueva forma de fetichismo.