Estudos Jornalísticos

terça-feira, junho 13, 2006

[200] Reportagem sobre a extrema-direita
O trabalho jornalístico que provocou celeuma a semana passada sobre a extrema-direita em Portugal, foi, no mínimo, de má qualidade. Como é possível intitular-se de “reportagem” uma série de depoimentos compilados, com recurso a imagens confusas e deixar-se propagar sentimentos racistas em horário nobre? Em termos de jornalismo, o trabalho é mau. Faltaram muitos elementos que dariam qualidade à peça: enquadrar os depoimentos do presidente do PNR, por exemplo, num âmbito mais geral, com perspectivas de cientistas políticos, de sociólogos, comparando com o que se passa noutros países (da Europa, principalmente), mostrar o que diz a Lei portuguesa a esse respeito. Tudo isso podia ser feito.

[199] Porque não se deve dizer mal da selecção – 2
Fiquei muito contente em saber que o filho de Paulo Ferreira se chama Diogo e que nasceu durante o estágio da selecção antes do Mundial da Alemanha. Ou, como disse um jornalista da TSF a terminar o noticiário: “Bem-vindo, Diogo”. Quem tenha ligado o rádio naquele preciso instante teria pensado que aquela era uma estação local e que aquele era um programa de discos-pedidos…

[198] Porque não se deve dizer mal da selecção – 1
Não sei o nome do jornalista da Antena 1, mas a frase por si proferida é tão ridícula que ele arrisca-se a ficar na história do jornalismo português como tendo transformado a sua própria opinião numa resposta de Gilberto Madaíl. “Sr. Presidente, se isto se passasse em Portugal diziam que éramos de 3º Mundo, não era?”. “Pois”, respondeu o presidente da Federação…

[197] “Mundial, estamos todos lá”, como diz a Xis - 3
No final do Mundial, talvez seja bom fazer uma espécie de debate no Clube de Jornalistas, tal como em 2004, mas não apenas com jornalistas que estiveram na Alemanha (porque esses nunca fazem nada de errado…). Juntar à mesma mesa responsáveis pelo marketing de algumas das maiores empresas (O BES e a sua bandeira, por exemplo, foi patriótico?), o assessor de imprensa da Federação, um jogador de futebol e um sociólogo. Todos à volta de uma mesa a falarem sobre jornalismo. Esta mania de pôr jornalistas a tecerem comentários sobre o seu próprio trabalho só produz conclusões inúteis.

[196] “Mundial, estamos todos lá”, como diz a Xis - 2
A grande questão desta parcialidade sem aspas dos jornalistas desportivos é um autêntico feitiço que se vira contra o feiticeiro. Que moral têm os profissionais da comunicação social para criticarem a selecção se for caso disso? Arriscam-se a levar com a uma resposta semelhante à dada por Figo no final do jogo com Angola quando disse “a imprensa acha que nós temos de dar 5-0. Somos a única selecção a ter de fazer isso”. A bajulação tem destas coisas: ao fim de tantos adjectivos, já não se consegue acreditar quando o árbitro apita a favor do adversário português e, sem ver as imagens, o jornalista diz que não é falta. Se o jornalista consegue provocar sentimentos dúbios ao ouvinte, leitor ou telespectador, mais vale entregar a carteira profissional.

[195] “Mundial, estamos todos lá”, como diz a Xis - 1
Na programação de qualquer meio de comunicação, face à presença mundialista da selecção portuguesa – cuja representação mediática tão extremada não encontra paralelo nos dois primeiros momentos em que tal ocorreu: não foi assim em 86 e, muito menos, em 66 –, podem distinguir-se padrões muito coerentes que passam uma mensagem simples: o “país” está com a selecção de futebol. Mas, atenção, ao contrário de competições internacionais de clubes, neste caso quando refiro o “país” faço-o na verdadeira acepção da palavra: o pendor nacionalista impregna qualquer manifestação associada ao futebol. A política está representada na Alemanha, os grupos económicos idem, a “nata” da sociedade, e, principalmente, o povo, estão “lá”.
Mas, escrevia, a programação mediática tem apresentado algumas curiosas coerências, que forçam a interrogações muito peculiares: se os textos, imagens, títulos e formas de fazer jornalismo são idênticas, que fazem tantos jornalistas portugueses na Alemanha? A pergunta é retórica porque tem resposta aparentemente fácil e encontra solução algures a meio entre a economia dos media e a própria credibilidade do meio de comunicação social. Mas atente-se alguns pormenores:
- A selecção angolana é “amiga”, tem vontade em vencer o jogo e o seu treinador até diz que não vai jogar para perder. Mas todos reconhecem o valor de Portugal. Inclusive os angolanos que vivem em Portugal e que nestes dias “descobriu-se” que são muitos. Saber em que condições, isso já é pedir muito e “ninguém tem pachorra para reportagens extra-futebol”.
- no final do primeiro jogo, as três principais rádios (RR, Antena 1 e TSF) jogaram no mesmo campo: análises de comentadores, entrevistas a personalidades, entrevistas a jogadores “na zona mista”, conferências de imprensa, intercaladas com entrevistas de rua, “em todo o país”. Estas últimas não resultam em televisão, mas em rádio funcionam ainda pior: só provocam ruído e “ruído”, já que não raras vezes é necessário ao ouvinte desligar-se de todo o meio ambiente para conseguir perceber o que o sr. António de S. Pedro da Cova tem a dizer sobre Scolari…
- Em Évora: conferências de imprensa transmitidas em directo pelas rádios, em que se é “obrigado” a ouvir o Nuno Gomes a responder à pergunta: “Fez alguma aposta com Mantorras?”. Ponto importante: nem tudo é mau e é de registar que alguns jornalistas estão a fazer um bom trabalho e com qualidade, apesar de tudo.

[194] Aponto
Os acontecimentos têm-se sucedido a um ritmo alucinante. Fixei, por estes dias, alguns apontamentos, que mostro a seguir.